Eliana Tomaz

A Casa da Mariana e do Diogo | O Contemporâneo Renascentista.

A Casa DeEliana TomazComment

Assim que entrei na casa Dias Coutinho a sensação foi de estar a entrar para um quadro renascentista (mas contemporâneo). Poderia ser um quadro neo-renascentista, mas não! É exactamente um espaço renascentista contemporâneo onde tudo está representado ao mais ínfimo pormenor numa linguagem visual contemporânea, simples e muito pragmática.

A casa é infinita, ao pormenor e de traço suave. Os tectos estão lá em cima, altos como mandava na época que foram desenhados. O branco predomina e é a madeira de pinho em vários pormenores interiores que o torna imaculado. O chão em soalho de madeira escuro vem dar o calor e conforto que uma casa desta dimensão exige. Um espaço de poucas palavras mas as que diz, di-las num tom meigo como eu imagino que os 3 filhos do casal sejam.

Mariana Dias Coutinho, artista plástica conhecida pelas histórias românticas e poéticas que conta pelos muros e paredes das cidades e ainda pela fantástica série “Pedregulhos” que, sem querer ser redutora, passa por dar personalidade a meros pedaços de pedra, algo que raramente é apreciado fora de contexto. Diogo Dias Coutinho, empresário e o criador dos pequenos pormenores em madeira que vos vão saltar à vista quando menos esperarem. E ainda a Inês, a Caetana e o Simão sem nunca esquecer o maravilhoso, divertido e amiguinho Choné, um Ratonero Bodeguero.

Agora entrem, respirem fundo porque o belo está diante de vós. Bem-vindos!

Entra-se e percebe-se que a qualquer momento podemos ouvir piano. A sala de estar está para lá daquela porta que deixa passar uma nesga mas para chegar lá há que virar à esquerda e passar pelo escritório do Diogo onde exibe uma estante embutida onde eu poderia perder horas a ler nem que fosse somente as lombadas daqueles livros todos. No momento que apreciava ao pormenor o pormenor, o Choné deu os ares da sua graciosidade e deita-se à porta da sala – depressa o conquistei e deixou-me passar!

Sai-se da sala, passa-se o hall e de repente um corredor que promete ser longo e alto convida-nos a entrar. Não se vê o fim – uma ligeira curva não permite ver até onde vai mas também não interessa. Os detalhes decorativos são tão bonitos e a promessa do que se segue é tão interessante que deixei de imaginar o que estaria para lá da curva.

Silêncio. O quarto do casal é o silêncio – só!
Pormenores dourados sobre o branco, assimetrias à cabeceira, amor desenhado por um dos filhos. É só isto – e é isto que faz do silêncio o equilíbrio que se procura sempre num quarto. 

A primeira palavra que me vem à cabeça quando penso nos 3 quartos dou miúdos é “democracia”. 3 irmãos que julgo serem diferentes, idades relativamente seguidas, duas meninas e um menino mas os quartos são democráticos. Não são iguais porque há um bocadinho de cada um deles bem definido, mas efectivamente são democráticos –e parece-me também que são os irmãos que exercem a soberania lá em casa.  

Nada se compara a uma casa de banho grande, iluminada por luz natural e luminosa no início de cada manhã. Esta tem tudo isto e ainda a privacidade que este espaço requer. 

Percorrido o corredor e todas as divisões privadas, encontramos uma porta dupla que se abre para uma sala digna de jantar. Imaginei a mesa repleta de alegria, comida confortável e bom vinho, adultos a brindarem à saúde, as crianças a correr de um lado para o outro e o Choné a tentar decidir atrás de quem é que vai! Uma história diferente daquelas que a Mariana conta nos seus murais, mas tão poética como o seu traço e que nos eleva com tanta graciosidade como um Fresco de Raffaello ou Michelangelo.

A cozinha é um espaço estilizado verde menta que remata (e refresca ainda mais) a casa. Tenho a certeza que, no momento que ali entrei os meus olhos brilharam ainda mais. Sorri ainda mais e ainda mais vontade tive de lá voltar – nem que seja para ouvir a criançada a correr de um lado para o outro ou quem sabe até fazer parte das brincadeiras deles corredor fora.

Uma casa completa e repleta ainda que para Mariana esteja a faltar uma coisa – uma horta! Acredito que sim mas também acredito que a qualquer momento nasce uma, nem que seja na varanda estreita da cozinha ou quem sabe até, uma horta vertical a descer paredes abaixo junto às portas brancas e esguias, como se de um Fresco tridimensional se tratasse.